24 December 2005

Pensamento 12

Ninguém é infalível, sempre caímos, e por isso, o levantar-se imediato e renovado, mesmo com os joelhos ralados, é o que caracteriza a liberdade de agradecer o dote de vislumbrar-se a luz da criação, já que nela sempre se revela um próximo degrau, um avançar!

Das peças de teatro, destacaria "Não sou hipocronaríaca, mas sinto um permanente frio brasileiro". No primeiro ato a atriz-solo treme inteirinha, sentada numa cadeira, não diz nada. No segundo, deitada coberta com edredon, grita sua declaração de amor ao país, quase sem respirar. No terceiro, nua, aquece-se frente a uma lareira, cantando hinos oficiais e, de quando em quando, solta amplas risadas. É brincadeira minha, inventei isso tudo, agora durante a entrevista. É uma demonstração de como é fácil e duvidoso se criar mitos. Por isto não posso destacar nenhuma peça de teatro como "a indispensável".

Penso que o texto dramático clássico que deveria ser encenado constantemente é o texto do Paulo Freire "Pedagogia da Autonomia", para a nossa diariamente assaltada, seqüestrada, violentada cidadania. Considero este texto dramático, de uma contundência e poesia absurdamente transformadora. Um elogio à vida vibrante totalmente possível neste cemitério nacional imposto aos vivos não-conformáveis.

Concordando com Guilherme Weber, um ator não pode desistir nunca de sua loucura, androgenia e humildade para praticar um bom teatro. O ator começa a produzir o mau teatro, no momento em que deixa entrar na sua lista de pagamentos mensais, um piscineiro para a sua casa.

(texto baseado em entrevista concedida pela Denise Stoklos ao OESP em 27.11.2005)

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