10 October 2004

Ouvir a própria voz gravada

Ao ouvir a nossa voz gravada ficamos chocados: esse aí sou eu?

Será que o equipamento está distorcendo a minha voz?

A voz sempre nos parece muito alta ou muito fina, muito lenta ou muito rápida, mal colocada, mal impostada, comemos palavras e sílabas. Você não reconhece nem o timbre nem a maneira de falar, não é?

A gravação representa bem a maneira que os outros falam e, para a nossa voz, a gente acha que o microfone ou o gravador não são bons.

Você sabe que foi você quem disse aquelas palavras e frases, sabe que foi você quem disse aquilo mas é como se ouvisse aquilo de um outro ângulo. Aquele não é você, é você e não é você! Você, então, cai num vazio, numa fissura que se abriu de repente.

Você se conhece "de dentro" e agora passa a perceber o "exterior", aquilo que os outros escutam de você.

Os profissionais de rádio conhecem a própria voz de trás para frente, e como estão acostumados a se ouvir, não se surpreendem mais, não sentem aquele mal-estar que sentimos na primeira vez em que escutamos a nossa voz, da forma como os outros nos ouvem.

As máquinas modernas possibilitam este descentramento, nos permitem ouvir a nós mesmos.

Não se trata de sair de si mesmo, mas de confirmar que desconhecemos muitas das nossas características humanas; devemos estar conscientes disto para não nos julgarmos sabedores de tudo. Os equipamentos modernos nos ajudam a questionar e a conhecer como os outros nos vêem.

Considerando este exemplo, podemos também pensar que isto deve ocorrer com o nosso comportamento e com os nossos pensamentos.

(texto baseado em texto de Roger-Pol Droit)

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