- ... porque o político é um fingidor, ele e o poeta sabem fingir a dor que deveras sentem...
- ... infantil... aquele que diz “eu quero para mim, quero ser melhor que todo mundo, quero que todos gostem de mim”.
- Esse assassinato das esperanças de quem acreditou em um governo petista está sendo inflado de forma irresponsável...
- [as campanhas eleitorais] têm sido conduzidas com uma ênfase tão grande nas técnicas publicitárias mais apelativas, espetaculares e infantilizadoras que o eleitor já virou público-alvo.
- [e] Indubitavelmente, isso cria muito mais do que esperança – cria fantasia, que é o fundamental da publicidade.
- Assim, Lula, PT, Duda Mendonça são co-responsáveis por isso.
- Talvez a grande decepção seja com a face propriamente republicana e política desse governo... que é da pior tradição política brasileira. As relações pessoais passam à frente das relações institucionais e da própria ética.
- Mas também tem a obrigação de dizer que, se está sob suspeita, não pode ser ministro. Não é pessoal.
- Parece-me que o Lula não tem a dimensão de uma ética pública. Ou a perdeu.
- O Brasil tem como grave problema a despolitização generalizada...
- ... não vale a política dos fins que justificam os meios – porque um dos fins é o amadurecimento da democracia.
- Esse governo não foi criado só para cuidar dos pobres, e espero que o Lula não esteja aí apenas como um “paizão” dos pobres.
- Ele teria sido eleito para aperfeiçoar um caminho democrático que, ao meu ver, poderia levar a futuros governos de esquerda – para que o povo, mais consciente, possa votar a seu favor em políticas que não sejam oportunistas...
- ... por que o ressentimento é covarde e não luta? Porque ele se vê como um puro, como alguém que não suja as mãos nas disputas da vida, como alguém mais sensível que, por isso, na feia briga da vida.
- As relações de poder no Brasil são muito afetivas, como já se disse.
- O resultado são efeitos de atraso – por isso nos colocamos diante das autoridades como crianças que ficam esperando ser reconhecidas por um pai amoroso. É o infantil frente a uma figura de poder maior, de quem se espera reconhecimento e justiça.
- [Sérgio Buarque de Holanda e o estilo de cordialidade da política brasileira]... os critérios de afeto valem mais do que os critérios da lei – aos amigos tudo; aos inimigos, Justiça. Assim, os valores da vida privada superam e invadem os domínios da vida pública... Lula se comporta como o homem cordial. Seus exemplos são sempre da vida familiar...
- Pode até ter muito sucesso com suas metáforas. Mas não politiza a sociedade, ao contrário – reforça a idéia de que o líder político é o pai bondoso que vai cuidar de nós, que nos ama e por isso devemos amá-lo.
- O plano dos afetos, no entanto, é ambivalente. Para amor virar ódio é um estalar de dedos.
Maria Rita Kehl, psicanalista e colaboradora intelectual do PT
[trechos da sua fala ao OESP(J3) – 28.06.2005]
No comments:
Post a Comment