- Viveríamos mergulhados em profunda e contínua escuridão se não tivéssemos a palavra falada e escrita para nos iluminar
- Precisamos cultivar a experiência pensante com a linguagem, o que supõe, além de saber ouvir, ler com atenção, ler nas entrelinhas, ler com toda a nossa inteligência e capacidade de interpretação
- A leitura, do ponto de vista dos pragmatistas, chega a ser uma loucura
- E por que ler em tempos de competitividade, em tempos de falta de tempo?
- A leitura, em particular a leitura de um poema ou romance, para a qual se requer imaginação e tempo livres, e a de textos filosóficos, que exige esforço mental, são consideradas perda de tempo por aqueles que acreditam mais no poder da ação do que na força invisível do sentido
- Contudo, é justamente a leitura, esta “ferramenta” privilegiada (fácil de carregar e “instalável” em qualquer mente humana) que vem para preencher-nos na era do vazio, uma leitura viciante e redentora
- Como escritor e como leitor compulsivo, aposto na formação de líderes da leitura, pessoas “fanatizadas” pelo livro, que durmam com livros, comam livros, vistam-se de livros
- Contaminados pela leiturose, pela leiturite, pela leitura compulsiva e sem moderação, certamente não resolveremos nenhum problema imediato, para a tristeza dos pragmáticos, a leitura costuma preferir problemas profundos, gestados durante muito tempo, e que somente são superáveis no próprio tempo
- A leitura, louca varrida, rouba-nos a falsa alegria do “não quero nem saber”, fazendo-nos perder tudo, exceto a sensatez, a leitura nos devolve, em forma de experiência interior, as horas que lhe dedicamos, quem lê ganha tempo
- A loucura da leitura é sabedoria saborosa
- A mansa loucura da leitura consiste em lermos seja o que for com o condimento da alegria, sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome de vida, sem alegria, leitura alguma merece o nome de leitura
- Talvez haja pessoas que, por falta de bons passatempos, e porque passam os dias perseguindo o vento, nas horas vagas limitam todo o seu entretenimento às correrias das viagens, aos encontros desencontrados das noites vadias, às conversas desconversantes, às aventuras já socialmente decodificadas, à contemplação de uma possivelmente ainda mais vazia programação de TV
- O elogio à leitura é uma defesa da leitura como salvo-conduto que nos permita sair e entrar, e percorrer caminhos de conhecimento, e voar, e correr e parar, e voltar e descer, e subir e contemplar
- A leitura como exercício intelectual, como instrumento de análise do real, saudável loucura
(baseado em texto de Gabriel Perissé – www.perisse.com.br)
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