15 October 2004

Ensinar é luta, arte e prazer

Gabriel Perissé(*)

Ensinar-estudar é uma luta. Não luta de boxe de professor contra aluno, naturalmente, mas luta corpo-a-corpo de todos contra o espírito de porco, contra aqueles que são do contra, contra aqueles que não sabem lutar a favor.
Luta desarmada contra armas secretas. Luta contra a falta de tantas coisas que fariam do ensinar-estudar um momento de paz; coisas simples como, às vezes, um pouco mais de respeito entre aqueles que ensinam, entre aqueles que estudam, e dos que estudam com os que ensinam, e vice-versa.
Lutar com palavras é a luta do ensino, e essa luta não é vã, não é inútil. Mal rompe a manhã ou mal desponta a lua, centenas, milhares, milhões de pessoas vão à luta nas escolas, nas faculdades, combatentes de todas as idades, luta dia-a-dia, noite-a-noite.
Luta desigual para que todos tenhamos condições iguais de lutar por uma vida melhor.
Mas ensinar-estudar é também uma arte. Arte de ouvir e falar, de calar e refletir, de perguntar e responder, de olhar e ver, de dialogar e refazer, de aprovar e compreender mais do que punir e repreender.
Os artistas do ensinar-estudar fazem teatro, vivem o drama, a tragédia, a comédia, e não querem fazer média consigo mesmos. Querem interpretar novos papéis para serem o que realmente são.
Esses artistas das salas de aula pintam quadros em que se retratam, retratando o que desejam viver, a profissão que desejam colorir, o conhecimento que desejam descobrir, as idéias surrealistas que desejam pôr em prática.
Ensinar-estudar é uma arte com escritores de todos os textos, escultores de todos os objetos, músicos de todas as melodias, dançarinos de todos os ritmos,cineastas de todas as cenas.
E, sendo luta e arte, ensinar-estudar é também prazer.
Muito prazer, apesar dos pesares.
Percorridos os desertos, prazer é encontrar a fonte da água mais leve, e beber o resultado de tantos esforços.
Prazer é o aluno, tenha a idade que tiver, escrever seu nome com todas as letras, e os pingos nos "is".
Prazer é o professor rever, depois de tantos anos, em rostos de mulheres e homens, os mesmos traços das crianças de outros tempos.
Prazer é entender que ensinar-estudar constitui tarefa para toda a vida e, provavelmente, para além da morte.

(*) Doutor em Filosofia da Educação (USP) e Coordenador do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa)

1 comment:

Suzana Gutierrez said...

Giba

Seja bem vindo à blogosfera :)

abraço,

Suzana